MIGUEL FLOR: FLORESCIMENTO PERMANENTE

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Porquê Miguel Flor no Portugal Fashion e no Bloom? O facto de eu ser designer de moda foi extremamente importante nesta escolha: por ter sido um designer emergente, tal como estes jovens estão a ser, e por compreender toda a logística e os problemas inerentes ao meio. Tudo isto faz com que me aproxime destes jovens. Também, o facto de eu ter já experiência como professor, com a escola, com a formação, com os recém formados e com o seu início de carreira põe-me, provavelmente, num papel mais ajustado. Faz também sentido falar na ligação que eu tenho com as artes plásticas. A moda vive das outras cultura e torna-se ela própria em cultura e o estar atento a uma série de factores mais plásticos é enriquecedor. Depois, a experiência e a idade… acho que há uma idade para se ser director criativo, precisas de ter alguns passos já dados para te sentires confortável numa posição que não é só de criação mas também de gestão.

Como vês o esforço do Portugal Fashion em criar uma dinâmica no mundo da moda? O Portugal Fashion tem uma ligação extremamente importante com a indústria e sempre fomentou a criação de laços entre esta e os criadores: criaram esta plataforma em que convivem os dois lados. Manter a indústria têxtil só é possível, no meu ponto de vista, através dos criadores e do design. Qualquer indústria que hoje não tenha um designer não está a pensar no futuro. O PF, em relação à criação em si, sabe que a conjugação de indústria/design é um valor acrescentado e é o que projecta o design nacional, os criadores e Portugal. Todo o trabalho de internacionalização que está a ser feito para colocar o design de moda português no mapa legível do design de moda é de louvar por parte desta instituição.

O Bloom parece ter adquirido uma identidade própria. O que é que alterou na projecção dos jovens designers? O objectivo do Bloom foi transformar este espaço em algo laboratorial, de vanguarda e isso só fazia sentido com miúdos que ainda não estão preocupados em vender mas sim em afirmar uma identidade. Nessa procura, como eles são parte integrante do Bloom, inevitavelmente participam na definição do próprio Bloom. A identidade do Bloom nunca é estanque, vai sempre depender dos players que jogam em cada edição. Há edições com propostas mais semelhantes e agora a tendência é que sejam mais diversificadas. Também, cada designer traz um pouco da identidade da escola onde fez a formação. E tudo isto vai culminar neste ponto de confluência – que se chama Bloom e que já não funciona como um concurso. Aqui não há um vencer ou ser vencido. Bloom é uma plataforma de crescer e de mostrar, é um florescer, é como uma estufa onde tudo pode acontecer e onde algo vai desabrochar.

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Que conotações encontras no Península Boutique Center que motivem a presença do Portugal Fashion? O Penínusula é uma galeria comercial de excelência da cidade do Porto. É um espaço cuidado, individualista. Tem nomes sonantes da moda, como a Carolina Herrera e a Purificación Garcia. Nomes importantes, o que faz com que, automaticamente, estar ali nos torne simultaneamente especiais, sendo um espaço por si especial. Percebemos que houve boa receptividade nos dois projectos que já apoiámos: as duas pop-up stores Bloom.

Qual o teu balanço sobre estas duas lojas, que também coordenaste? Todas estas iniciativas proporcionadas pelo Península servem também para dar aos jovens designers de moda algo que lhes falta: a possibilidade de ter um ponto de venda. Ter esta oportunidade é uma mais valia e torna o Península único: mostra como é moderno, contemporâneo e atento ao que se passa no país e na cidade em que está inserido. No início tivemos algum receio porque sabíamos que seria uma loja com peças muito especiais e mais vanguardistas, que passam muitas vezes por uma produção muito manual, ou seja, não têm um carácter tão industrial. Mas fomos muito bem recebidos pelo público do Península, que reconheceu a qualidade de design, de materiais, de confecção. E o facto de os próprios designers terem estado à frente da loja criou um diálogo muito interessante entre o produtor e o consumidor final. Isto é essencial, tanto para quem produz, pois tem logo um feedback directo dos erros e dos sucessos, como para o próprio consumidor final, que teve a oportunidade rara de dialogar directamente com o designer. Este tipo de experiências resultaram muito bem e agrada-ram a ambas as partes. Esta foi uma forma do público ter acesso a estes designers e perceberem que a moda vai muito além do show, que muitas vezes projecta as peças de um modo “investível”.

E para os designers presentes, quais as vantagens que achas que esta experiência lhes trouxe? Este diálogo aproximado com o consumidor final, sem dúvida e por poderem experimentar o lado do marketing: a venda, se o preço é ajustável ao mercado. Funcionou como uma espécie de valorização pessoal, de aprendizagem. E é fantástico o Península abrir-nos as portas, não só ao Bloom como a outros designers. O Península está a alargar-nos este espaço de “estufa” (e faz parte dela) que vai gerar novos bloomers, novos criadores que, no meu ponto de vista, são o futuro da moda em Portugal. A tua experiência trouxe ao projecto um à vontade com o circuito da moda nacional, independentemente da tua linha de pensamento.

 

Como avalias os novos designers? O mais importante num designer é a sua identidade. Às vezes vês um trabalho e até podes não te identificar com ele, mas percebes que pertence a alguém. Os criadores de relevo, nacionais e internacionais, têm uma identidade. Quem está mais dentro deste sistema consegue identificar um designer olhando apenas para uma imagem. Eu penso que essa identificação é importante. Paralelamente a isto, a qualidade das peças, de produção, dos materiais são factores extremamente importantes. E a cereja no topo do bolo será a dedicação. Derreto-me com um designer completamente focado. O meu trabalho no Bloom não é puramente o de definir o espaço e pô-los a desfilar. Eu faço trabalho de mentor, acompanho-os imenso, e percebo quando é que estão focados ou não. Quando vejo portefólios percebo logo o enfoque, se o grafismo casa com o conceito, se está tudo bem definido e relacionado. Este processo de análise é demorado por envolver várias componentes. Para a próxima edição do Bloom tivemos 111 candidaturas. É um sucesso. As pessoas percebem que faz sentido passar por ali para conquistar algo mais. Julgo que o Bloom tem vindo a ganhar, cada vez mais, o respeito de todos. Temos agora esta exposição em Londres durante a semana de Moda e é esta projecção que nós queremos para o Bloom: temos de crescer globalmente. E achas que as pessoas do circuito deram mais atenção e valor ao projecto por estares envolvido nele? Estas questões da moda são efémeras. Fui um designer emergente e tive o meu sucesso. Acabei por ter uma carreira curta, como marca própria, mas muito acarinhada pela imprensa nacional e mesmo internacional, e também por alguma lojas e clientes que me equiparavam a alguns designers internacionais. E isto deu-me uma relevância bastante interessante e, assim, o meu nome esteve sempre presente. Quando surgiu este desafio de eu coordenar o Bloom as pessoas que se lembravam de mim quiseram vir saber o que é que eu estava ali a fazer. E poderia ter resultado mal porque elas poderiam achar que eu não estava ali a fazer nada de contemporâneo, nada que fosse pertinente mesmo vindo eu da moda.

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ESTELITA MENDONÇA: ASCENÇÃO

Queres falar um pouco da tua marca? A marca vai evoluindo comigo e vou-me apercebendo de ideias permanentes no meu trabalho. Na última colecção em particular apercebi-me melhor das motivações do meu trabalho e percebo que passa por uma compreensão de mim, do que eu sou e do meu exercício em transpor isso para a identidade da marca. Não vejo a marca completamente conceptual, penso que acaba por ter esta base pessoal que depois se se reformula conceptualmente para dar origem, no fundo, a direcções para as colecções. As últimas experiências com as pop-ups e com a presença em Viena foram preponderantes para solidificar esta consciência sobre como o meu trabalho se desenvolve. E acho que o próprio público compreende isto no modo como apresento a colecção.

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Estiveste em Viena a apresentar a tua última colecção. Fala-nos um pouco dessa experiência. Viena correu muito bem, foi uma excelente oportunidade. Percebi o que é que funciona e o que não funciona nas minhas peças, se tinha de fazer as coisas de outra forma e como, como as comu- nicar. Nas pop-up’s Bloom no Península Boutique Center também consegui isso: percebi como é que a comunicação da minha marca chegava às pessoas que passavam pela loja, e foi também enriquecedor porque recebi muito feedback que alterou a forma de eu fazer as coisas posteriormente.

Considerando que nas duas pop-up stores Bloom no Península Boutique Center se concentrou uma  geração de designers que se aproxima nas idades, achas que esta experiência foi igualmente gratificante para todos? Sim, foi muito importante. Estamos todos a crescer ao mesmo tempo, uns mais depressa outros mais devagar, uns mais interessados outros menos. Mas foi importante percebermos como é que as pessoas lidavam com as nossas peças. Eu passei muito tempo na loja e vi muitas pessoas a comprarem roupa de senhora e que faziam comentários sobre o acabamento, sobre a maneira da peça caír, e esses comentários influenciaram o meu modo da fazer as minhas peças, que são de homem. Todos aprendemos imenso, foi um teste às nossas capacidades. Passei a ser ainda mais minucioso. Podemos achar que o público não é muito observador, mas eu senti o contrário. Vi os clientes a repararem e a criticarem pormenores e a estabelecerem imediatamente ligações ao preço, o que faz a nós designers perceber o modo como as pessoas avaliam as peças.

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Além desta experiência, que foi aberta a um público imprevisível, acabas por ter já alguns clientes que te procuram? Sim, tenho já criado um núcleo de clientes que me procuram. Também me procuram para fazer figurinos para peças de dança e guarda roupa para cinema. Tenho inclusivamente um cliente que me procurou depois de me conhecer na loja do Península para um projecto de guarda-roupa.

O que pensas da acção do Portugal Fashion na moda nacional? O Portugal Fashion é uma óptima plataforma para mostrares o teu trabalho, e todas as iniciativas que a ANJE tem tido, mesmo as de internacionalização, são um esforço muito importante para nós, porque permitem-nos projectar e mostrar a nossa marca e a reconhecer o nosso público, e isto ajuda-nos a crescer e a desenvolveres cada vez melhor o nosso trabalho.

Nas edições do Portugal Fashion, já não és um “bloomer”. Já subiste para a categoria principal. Como corre essa transição? Sinto uma responsabilidade maior em fazer parte da sala principal, mas em Viena, onde senti que tinha mesmo de me representar muito bem, tive um excelente treino, e isso reflectiu-se posteriormente no meu primeiro desfile no Portugal Fashion. Senti mais domínio, já tinha feito o trabalho de casa. A transição correu bem porque senti que o meu trabalho estava a ser reconhecido. A parte da responsabilização mudou muito porque no Bloom temos o apoio do Miguel Flor, que é o coordenador do projecto. Ao dares este salto deixas de ter quem te segure, quem te leve de mão dada, apesar das decisões no Bloom também serem tuas. Na sala principal és mesmo responsável por tudo. Aprendemos muito no Bloom e quando passamos para cima é como se fôssemos à prova final.

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SAL NUNKACHOV: DO LADO DE LÁ

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És presença quase omnipresente em todos os eventos de moda nacional. Do teu ponto de vista, que também é de fotógrafo, o que vês de mais interessante a acontecer no panorama nacional? Eu sou muito suspeito, pois olho as peças criadas com o intuito de fotografar e não de vestir. Assim sendo, as peças mais gráficas enchem-me sempre mais o olho. No entanto, denoto que tem havido surpresas muito agradáveis, especialmente nos backstages dos finalistas de design de moda, que tenho acompanhado, assim como no Bloom. É interessante também ver a evolução destes designers desde o Bloom, como o caso da Daniela Barros e do Estelita Mendonça que passaram para “o andar de cima” do Portugal Fashion.

Fotografas imenso o backstage dos desfiles de moda. O que te atrai desse lado? Em backstage há uma preparação para um espectáculo. Nessa preparação há uma configuração mais humana que passa pelos momentos de stress, de euforia, de pânico de verificar se tudo está conforme queríamos, de alegria no final da apresentação. Há todo um espectro de emoções à flor da pele que me interessam e, ao mesmo tempo,  há toda uma equipa a trabalhar, sendo que me permite escolher o que registar, ao invés do desfile, que me é escolhido o que fotografar. O que me interessa são essas cumplicidades e energias, além do facto de se estar a construir algo, que por mim é sempre mais interessante do que algo já construído.

Além de fotógrafo és também bastante empreendedor: tens algumas publicações lançadas e inclusivamente tens um showroom com peças de jovens designers portugueses em Leiria. Como vês a abertura de uma loja Portugal Fashion no Porto? Eu tenho uma editora independente de publicações muito modesta, a ppr serve para editar coisas que eu gostaria de ver editadas, mas que, por esta ou outra razão, as editoras existentes não se interessam frequentemente. Acho que as recentes pop up stores, assim como toda e qualquer inicitativa de aproximar a pessoa de um produto que não seja em massa, acho de louvar. O mercado caminha para uma generalização e fenómenos como estes podem servir como contrabalanço no peso desmedido que as multinacionais têm. Penso que deveria haver mais inicitaivas destas, mesmo fora dos grandes centros urbanos, ou mesmo estudar viabilidade de itinerância de um showroom de criadores.